O movimento de retomada ganhou força em 2023, quando o Leão conquistou o título da Série B e retornou à elite do futebol brasileiro após seis anos. Agora, buscando se firmar na Série A com um dos menores orçamentos da competição, o clube trabalha para criar condições de se consolidar entre os principais times do país.
A temporada atual marca o terceiro ano consecutivo do Leão na Série A, e a conquista da Copa do Nordeste encerrou um jejum de 16 anos sem o título regional. No Campeonato Brasileiro, o Rubro-Negro fechou o primeiro turno na 11ª colocação e na Copa do Brasil conseguiu uma classificação histórica às oitavas de final ao eliminar o favorito Flamengo. Os resultados dentro de campo refletem parte desse processo, mas a evolução do clube passa pelos bastidores, especialmente pela reformulação e estruturação do departamento de mercado e scout.
Em entrevista exclusiva ao Bahia Notícias, Rodrigo Carvalho, diretor de scouting do Vitória desde o fim de 2024 e com saída já anunciada para assumir a análise de mercado da América Latina no Crystal Palace, da Inglaterra, detalhou como foi a estruturação do departamento e revelou como funciona o processo de tomada de decisões entre scout, comissão técnica e diretoria na busca por reforços.
Após duas temporadas marcadas por uma ampla reformulação do elenco, o Vitória mudou a estratégia de mercado em 2026 e passou a priorizar a manutenção de uma base mais consolidada. Na primeira janela da temporada, o Rubro-Negro contratou 14 jogadores, metade do número registrado em 2024 e 2025, quando realizou 28 contratações em cada ano.
A redução no volume de reforços representou a valorização dos atletas que permaneceram no clube e chegadas voltadas para necessidades pontuais do elenco. Jogadores como Lucas Arcanjo, Baralhas, Erick, Ramon e Renato Kayzer permaneceram na equipe, enquanto as contratações passaram a ser mais contundentes, com nomes que rapidamente assumiram importância, como Cacá e Luan Cândido, atuais titulares da defesa; Nathan Mendes, dono da lateral direita até sofrer grave lesão na semifinal da Copa do Nordeste; além de Diego Tarzia e Renê, peças importantes na campanha do título da Copa do Nordeste.
Em sua passagem pelo Leão, Rodrigo Carvalho participou do planejamento de diferentes janelas de transferências e esteve envolvido em mais de 40 contratações. Na conversa com o BN, o profissional explicou como eram definidos os perfis dos reforços, elogiou os analistas Ítalo Amorim e Ícaro Bispo, que, segundo ele, têm “totais condições de seguir o trabalho”, relembrou os desafios de montar um elenco competitivo com limitações financeiras e projetou os próximos passos da carreira na Premier League
Bahia Notícias: Rodrigo, você chegou ao Vitória no fim de 2024 para estruturar o departamento de mercado. Qual era o cenário encontrado naquele momento e quais foram as primeiras prioridades?
Rodrigo Carvalho: O cenário encontrado foi um departamento organizado, com processos. As prioridades, naquele momento, foram sanar as carências do elenco com uma estratégia reativa, visto que, quando eu cheguei, já havia algumas contratações encaminhadas
BN: Hoje, como está estruturado o departamento de scout do Vitória? Quantos profissionais fazem parte da equipe e, na sua avaliação, esse tamanho é compatível com clubes que disputam a Série A ou ainda há espaço para crescimento?
RC: O departamento possui um head, dois analistas de mercado presencial e um suporte do departamento de mercado da base. O Vitória hoje está dentro do padrão. Obviamente, sempre há espaço para melhora, mas a quantidade nem sempre quer dizer qualidade.
BN: Como foi construída a metodologia de trabalho do departamento de mercado e scout do Vitória? O que mudou em relação ao que existia anteriormente?
RC: Em cima das carências do nosso elenco, fomos criando rotina de monitoramento de determinados campeonatos nacionais, sul-americanos e oportunidades também no mercado internacional. Além disso, também acompanhamos atletas brasileiros de ligas pontuais do exterior. Acredito que passamos a dar uma atenção maior àquilo que a comissão técnica e a diretoria desejavam, apresentando um campograma com uma quantidade menor de atletas, porém dentro da nossa realidade e filosofia. A filosofia que trabalhamos visa proteger os cofres do clube, trazendo atletas que, num primeiro momento, não oneram o clube e, num segundo momento, possam ser adquiridos, como o Baralhas, Erick e Renê.
BN: O departamento participou de mais de 40 contratações desde a sua chegada. Qual foi o maior desafio para montar um elenco competitivo dentro da realidade financeira do clube?
RC: O maior desafio, com certeza, é a questão financeira, pois o clube não tem a realidade financeira necessária para fazer aportes que outros clubes da Série A têm. Então, pensamos em conjunto com a comissão técnica e a diretoria o perfil desejado para o elenco, como dito pelo presidente Fábio Mota, os “Guerreirinhos”, atletas “com fome” e desejo de performance, entendendo o contexto do Vitória.
BN: Como funcionava o processo de decisão entre scout, diretoria e comissão técnica? Quanto o perfil de jogo desejado pelo treinador influenciava na escolha dos reforços?
RC: 100%. O processo é muito simples e objetivo. Reunimos na sala membros do departamento de mercado, da comissão técnica e da diretoria. Nessas reuniões, apresentamos as carências identificadas através de campogramas, com, no mínimo, cinco opções por posição. Apresentando opções de atletas com aporte de investimento, oportunidades de mercado, empréstimo e pré-contrato. Chegando a um consenso entre mercado, comissão e diretoria, o atleta é contactado pelo executivo do clube.
BN: Quais contratações desse período representam melhor o modelo de mercado que vocês buscaram implantar?
RC: Os atletas que chegaram emprestados e que nós tínhamos a certeza de que iriam performar, como o Baralhas, o Erick, o Halter, o Jamerson, o Ramon e o Renê. Nesse ano, ainda temos as possibilidades de finalizar a contratação de atletas que estão emprestados e performando, como o Nathan Mendes, Luan Cândido, Zé Vitor, Cacá e Tarzia.
BN: Quais processos, ferramentas ou rotinas implementados por você acredita que permanecerão no departamento após a sua saída?
RC: Como falei anteriormente, alguns processos foram implementados e abstraídos pelos profissionais que aqui estão. Tenho certeza de que os dois analistas que seguem no clube, Ítalo Amorim e Ícaro Bispo, têm totais condições de seguir o trabalho que foi implementado.
BN: Quais jogadores que vocês tentaram contratar e que acabaram não vindo, mas que você pode revelar hoje?
RC: Prefiro enaltecer aqueles que chegaram, acreditaram no projeto e hoje estão entregando ao clube aquilo que a gente esperava.
BN: O que ainda faltava implementar no departamento de mercado e que fica como desafio para quem assumir o setor?
RC: Acredito que o maior desafio já foi superado, que foi a montagem do nosso departamento e a definição de nossas diretrizes. Acredito que, com os profissionais que aqui permanecem, a qualidade do trabalho tende a continuar e, inclusive, evoluir, por se tratar de profissionais em pleno crescimento.
BN: Quais serão os principais desafios de assumir a análise da América Latina para um clube da Premier League? O que muda em relação ao trabalho realizado no Vitória?
RC: São realidades completamente diferentes. Apesar de ter um aporte financeiro muito maior que a maioria dos clubes do Brasil, a realidade do clube dentro da liga tem algumas similaridades com o mercado nacional brasileiro. E a filosofia de contratação que eu encontrarei lá é diferente daquela que implementamos aqui no Vitória num primeiro momento. Além disso, naturalmente, o mercado de um clube inglês é muito mais amplo do que o sul-americano.


