Bronze para Cielo

Ele esperneava de tão irritado. Cuspia marimbondos. Bufava. E chorava, chorava, chorava. Que ninguém tentasse consolar o pequeno Cesar se ele não fosse o primeiro colocado em suas provas de natação quando criança. Que ninguém tentasse parabenizá-lo por uma prata ou um bronze. Por vezes, ele até se negava a subir ao pódio. Tinha obsessão pelo primeiro lugar, tinha gana por estar aqueles centímetros acima dos demais – como quase sempre esteve na infância e na adolescência, como se acostumou a estar quando adulto, como foi eternizado em Pequim. Nesta sexta-feira, a cortesia olímpica e a maturidade esportiva fizeram Cesar subir ao palco para ser parabenizado pelo terceiro lugar. Ele não esperneou. Não cuspiu marimbondos. Não bufou. Mas chorou. Já com a medalha no peito, chorou. Por um dia, o grande Cesão, o enorme campeão olímpico de Pequim, voltou a ser criança, voltou àquele tempo em que não aceitava perder.

Foto: AGIF

Cesar Cielo é medalha de bronze nos 50m livre das Olimpíadas de Londres. Com o mínimo de compreensão do cenário olímpico, é fácil concluir que não é o fim do mundo: afinal, é uma medalha. Talvez qualquer um de nós, no lugar de Cielo, gargalhássemos de alegria. Mas ele não aceita perder – sobretudo perder para ele mesmo.

O panorama do nadador era o ouro de quatro anos atrás. Ele se obrigava a manter o topo como seu habitat. E não conseguiu. Por isso, mesmo que por alguns minutos, voltou a ser a criança de tempos atrás.

Mas é engraçado. Ao mesmo tempo, um grandalhão com apelido de bebê ficou feliz da vida com uma medalha da mesma cor, do mesmo peso, do mesmo quilate da de Cesar. Rafael Silva, o Baby, fez o judô do Brasil quebrar seu recorde de medalhas em uma mesma edição dos Jogos. São quatro – acrescidos aí o ouro de Sarah Menezes e os bronzes de Felipe Kitadai e Mayra Aguiar. O bebê bronzeado é uma criança um tanto bem nutrida: tem 2,03m e 168kg – sem contar o peso da medalha no peito.

Os dois bronzes

Cesar Cielo era o favorito da prova. Era o atual campeão, o recordista olímpico, o recordista mundial, o dono da melhor marca nas semifinais. Novo ouro era uma realidade. Mas faltou combinar com um francês. Florent Manaudou, de apenas 21 anos, fez uma das provas mais surpreendentes de toda a semana de natação em Londres. Com 21s34, garantiu o ouro – o tempo é superior a todos aqueles alcançados pelo brasileiro sem os supermaiôs. A prata ficou com o americano Cullen Jones, com 21s54. Cielo fez 21s59. Quase perdeu a medalha para outro brasileiro, Bruno Fratus, que completou os 50m em 21s61.

– Poderia ter feito melhor – disse ele.

Rafael Silva vivia realidade diferente. Embora forte na categoria peso-pesado, degustava sua primeira experiência em Olimpíadas. Para subir ao pódio, ele teve que superar Kim Sung-Min, da Coreia do Sul, no golden score.

Venceu por yuko, pontuação mínima do judô, graças ao acúmulo de shidos (advertências) contra seu adversário. Foi engraçado vê-lo comemorando ao lado de seu treinador, Luiz Shinohara, de 1,65m. Era muita discrepância no tamanho. E muita semelhança na alegria.
O ouro na categoria foi para o francês Teddy Riner. Alexander Mikhaylin, russo, foi prata. O outro bronze ficou com Andréas Toelzer, alemão.

Dia de eliminações para o Brasil

O dia foi ruim para os esportes coletivos brasileiros. As mulheres foram eliminadas no futebol e no basquete. Também perderam a invencibilidade no handebol. E vivem situação de alerta no vôlei.

No futebol, a derrota foi para o Japão, atual campeão mundial, por 2 a 0. Marta teve atuação apagada. E o Brasil, duas vezes vice-campeão olímpico, morreu de forma precoce, já nas quartas de final. A campanha começou com duas vitórias, sobre Camarões e Nova Zelândia, mas foi abalada ainda na primeira fase com insucesso contra a Grã-Bretanha. Era o prenúncio do fim.

E o basquete foi a crônica de um fiasco anunciado. Com atuações recheadas de momentos quase infantis, a seleção somou um tropicão atrás de outro. A quarta derrota seguida foi para o Canadá: 79 a 73. Como punição para uma campanha tão medíocre, a equipe ainda terá que enfrentar a Grã-Bretanha em um jogo que, para o Brasil, terá valor nulo. A eliminação já é certa, já é matemática.

É uma situação bem diferente daquela vivida pelo handebol, que perdeu nesta sexta-feira, mas pela primeira vez. Após três vitórias, as meninas levaram 31 a 27 da Rússia. Mas elas já estão garantidas nas quartas de final.

O vôlei reagiu. Pouco, mas reagiu. A seleção feminina bateu a China por 3 sets a 2 e agora depende da última rodada para avançar. Tem que vencer a Sérvia, lanterna da chave, e torcer para que a Turquia perca para os Estados Unidos. É provável que aconteça.

Fonte: Globoesporte.com