O fim de uma ilusão

Após a Copa do Mundo, Tite perdeu os títulos de supertécnico, de super-herói, de messias, e passou a ser elogiado e criticado, como qualquer bom treinador. Deveria ser assim com políticos e profissionais de todas as atividades. Porém, muitos adoram criar heróis e vilões. Ficam cegos ou enxergam só o que querem. Deixam de ser observadores neutros, embora ninguém seja totalmente neutro, já que enxergamos também de acordo com nossos pré-conceitos, desejos e preconceitos inconscientes.

Uma das críticas atuais a Tite é que ele deveria fazer uma reformulação mais profunda da Seleção, não convocar jogadores que atuaram nas copas de 2014 e de 2018, como Thiago Silva, Marcelo, Paulinho, Willian, Fernandinho. Neymar seria a exceção. Deveria também preferir jovens aos mais veteranos, com mais de 30 anos e que atuaram na Rússia.

Não é por aí. Quase todos os que jogaram em 2018 continuam em forma, em grandes equipes do mundo, e são superiores aos novatos que têm sido convocados. Não dá para ter nenhuma certeza sobre como estarão os mais experientes em 2022. Arthur é o único dos jovens que não estiveram na Copa que merece ser titular do time atual. Os outros são incógnitas.

Nos amistosos, Tite tem mantido a base da equipe que jogou na Rússia, mas, acertadamente, tem revezado alguns atletas, como Thiago Silva, Marcelo, Filipe Luís, Paulinho, Willian e outros. Os jovens que chegam à Seleção e que precisam evoluir necessitam jogar em um time com bom conjunto e na companhia dos mais experientes. Não podemos esquecer ainda que a Seleção não fracassou no Mundial. Perdeu para a Bélgica, um dos times mais fortes. Terminou a ilusão de que o Brasil é o grande favorito nas copas.

Fernandinho, o único do Mundial que ainda não foi convocado, brevemente será chamado, como disse Tite. Fernandinho continua muito bem no Manchester City e é, disparado, o melhor substituto para Casemiro. Tite argumenta que não se pode bani-lo por causa de uma bola que bateu no jogador, por acaso, e entrou no gol. Mas a galera vai protestar quando ele for convocado. Ele jogou mal contra a Bélgica, mas estava sozinho na marcação no meio-campo. Mais isolado ainda estava em 2014. A história se repete, em intensidades diferentes.

Na entrevista, ao vivo, na Redação SporTV, Tite lamentou, mais uma vez, a contusão de Renato Augusto, o que desestruturou o meio-campo do Brasil. Coutinho jogou no lugar dele. Por isso, não entendo por que, nos últimos amistosos, Coutinho foi escalado, na maior parte do tempo, novamente no meio-campo. Nessa posição, ele teve e tem momentos individuais brilhantes, mas pouco volta para marcar. Coutinho é melhor mais avançado, pelos lados, principalmente pela esquerda, como tem jogado no Barcelona.

Tite tem alternado a posição de Neymar, ora pela esquerda, entrando em diagonal, como sempre fez, ora pelo centro, como um meia de ligação, como no PSG. Nessa formação, com ele pelo meio e dois jogadores abertos, a equipe muda a estrutura tática, pois, em vez de um trio no meio-campo, terá dois volantes.

O momento é de experiências, até a Copa América. Se o Brasil jogar mal e perder, Tite correrá risco de ser demitido. Terminou a ilusão, a imunidade de supertécnico. Os adultos, com seus demônios, adoram recriar super-heróis, uma volta à infância, ou destruí-los, quando eles não pensam como nós.